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A escritora Luana Simonini lida diariamente com a criatividade. Aos 31 anos, já tem um livro publicado, Controverso – Histórias que Beliscam, e dedica parte do seu tempo a contar histórias.

Formada em Publicidade e Propaganda e em Letras, essa jovem muito bem-sucedida em áreas que demandam criatividade o tempo todo conversou com a gente sobre o seu processo criativo e como deixar a mente sempre aberta a novas ideias!

 

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Confira dicas de como manter seu processo criativo sempre funcionando.

Como ocorre seu processo criativo? Você tem uma rotina para que as ideias inovadoras venham?

Meu processo criativo deixou de ser processo faz tempo. Processo exige rotina, um passo depois do outro, e, pra mim, não funcionava mais. Quando vi, meu texto estava enlatado pelos imperativos da publicidade, entre tantos “clique aqui” e “compre agora”, daí, minha paixão pela palavra esfriou.

Até que o processo deu lugar à observação. Passei a reparar mais nas pessoas que cruzavam meu caminho na rua, na fila, no ônibus. Mantive um olhar curioso sobre o que elas levavam na bolsa, nos bolsos, nos envelopes pardos. Os desconhecidos ganharam nome na minha história inventada.

Um dia, uma dessas histórias me escapou num documento de Word. O cursor piscava e me exigia um fim que eu não tinha quando comecei. Percebi que o texto poderia me levar pela mão. Era só ir.

O Controverso nasceu assim. Comecei um blog e, dele, lancei o livro. Os contos, todos protagonizados por mulheres sem querer, traziam algo que poderia passar despercebido ao olhar desatento.

Esse exercício de observar e escrever fez com que as histórias e os versos invadissem meu banho, meu sono, minha esquina. Desde então, quem dita o processo é o meu olhar. Agora, mais atenta ao mundo e ao outro, sei que, a qualquer hora, um pensamento vago pode se tornar um texto. Basta ir.  

Seu trabalho como publicitária exige criatividade. Como você faz para se manter criativa quando entra o lado escritora?

Gosto de escrever desde muito pequena. Escrevo mais do que leio, inclusive. Quando fiz Publicidade, queria ser redatora. Nada mais natural, naquela época, colocar minha paixão na carreira. Acontece que a Publicidade me fez perder, aos poucos, meu propósito pelo texto. Naquele período, já trabalhando em agência, escrevia por escrever. Não entendia mais minha contribuição para as pessoas, para o mundo. Não me sentia útil.

Fiz o que qualquer pessoa em crise faz. Cacei sarna para me coçar. Entrei no curso de Letras da UFMG com a mesma despretensão de quem compra uma blusa. Era minha segunda graduação, e eu só queria respirar um outro ambiente.

Costumo brincar que a Letras me ensinou a ser mais comunicadora do que o curso de comunicação em si. As possibilidades da linguagem são infinitas, e é um processo tão rico, tão bonito, tão humano, que me vi apaixonada de novo pela palavra. Hoje, não tem a publicitária e a escritora (ainda acho tão estranho carregar esse título, confesso), tem alguém completamente entregue para ver uma nova história acontecer, um novo verso surgir, uma palavra nova pintar. E nesse processo de entrega e observação que a criatividade acontece, seja no horário comercial ou minutos antes de dormir.  

Você tem gatilhos criativos? Há alguma fórmula que você usa para quando ela não quer vir?

Às vezes, é perturbador ouvir tantas vozes na sua cabeça. São tantas histórias pedindo para sair e, ao mesmo tempo, vem um medo de me perder, de esquecer, de deixar escapar aquele conto. Pois é, às vezes acontece. Não impeço e, se soubesse alguma fórmula de impedir, certamente não faria. Por mais que minha criatividade se mostre cada vez mais impaciente.

Por estar totalmente entregue, uma ideia pode surgir a qualquer momento, mas, pra mim, nada inspira mais que uma janela em movimento. Seja do carro ou do ônibus, quando vejo a cidade acontecer diante de mim, encontro uma palavra perdida na esquina.

Você poderia dar dicas de como estimular a criatividade?

O primeiro de todos é observar. Manter-se em estado de observação é se entregar totalmente ao momento a tal ponto de, simplesmente, ser esse momento e não só estar. Observar é se permitir criar espontaneamente. Encarar o outro como página em branco, permitir-se arriscar ao juntar uma palavra totalmente aleatória à outra. Observar também o som das sílabas a tal ponto de esvaziar aquelas palavras com seus sentidos já tão gastos. Assim, criar novos sentidos que tornarão seu texto único.

Uma segunda dica é manter uma caneta ou um bloco de notas do celular a postos. É tão triste ver um verso, um título, um final escapar pelo esquecimento. E, sim, você vai esquecer. E sempre que isso acontecer, vai achar que aquela foi a sua criação mais incrível de todas, mesmo não sendo.

Ao se permitir escrever uma ideia qualquer, qualquer mesmo, você se permite também a pegar pela mão da palavra e ir. O texto sempre vai te levar par algum lugar. Comece escrevendo uma história mesmo que não tenha a menor ideia de onde irá.

Quando a gente passa para o papel qualquer ideia, ao colocar o ponto final, aquela história deixou de ser sua e está pronta para ser memória do outro. Costumo dizer que, enquanto a escrita é um processo solitário, publicar-se é encontro. Quem dá o sentido é o leitor, quem colore os olhos do personagem, quem imagina a roupa, os cenários, por mais descritivo que o texto seja, é quem lê. Quando a gente publica, permite que aquele texto, mesmo sendo tão nosso, seja também o espelho de outra pessoa. E isso é tão inspirar quanto uma janela em movimento.