Carregando..

A técnica do lettering conquista cada vez mais corações e espaços. A ideia de brincar com diferentes formas e pesos e assim criar um texto que pareça uma ilustração é a profissão da designer gráfica Ariane Vieira, que mostra no seu Instagram suas criações incríveis tanto em papel quanto em materiais inusitados como comida! 

https://www.instagram.com/p/ButiWnGjgyO/

 

O Tactile Design é a vertente do design que procura ser totalmente manual, os profissionais deste segmento usam técnicas de colagens, recortes, costuras, dobraduras, bordados ou qualquer outra sendo ela artesanal. Ariane Vieira mostra um pouco dessa ideia e conta em entrevista para a Casa Beta como começou sua trajetória na arte e suas principais inspirações artísticas.

CB: Como começou a sua trajetória no design? E há quanto tempo você se encantou com a técnica do lettering e decidiu começar a se dedicar a isso? 

Eu sempre gostei muito de criar coisas. Fazia cartões diferentes para as pessoas queridas, embalagens, envelopes. Eu era muito curiosa de aprender e fazer trabalhos manuais. Também sempre fui apaixonada por capas de livros, layouts de revista, ilustração… Eu sabia que gostaria de trabalhar na indústria criativa. Porém foi só no 3º ano do Ensino Médio que descobri que o que eu queria tinha um nome: Design Gráfico. 

Logo no primeiro ano da faculdade eu percebi uma tendência crescente no desenho de letras. Tanto por causa do contexto da universidade, quanto por utilizar plataformas como o Pinterest, Instagram e Behance. Ao fazer o workshop “Custom Type” do Jackson Alves e ter aulas sobre tipografia, foi que entendi que o Lettering era mais do que um simples desenho. Muitos princípios do design enriquecem as composições, diferenciando amadores de profissionais.

CB: O desenho de letras é uma técnica antiga, que remete ao início da era da comunicação. Com o tempo, ela foi substituída pelas fontes, que trazem mais facilidade e rapidez, para a imprensa, por exemplo. E depois veio a era do computador, que fez a gente parar totalmente de escrever a mão. Mas, nos últimos anos, a gente vê um retorno da letra escrita à mão… O que você acha que motivou essa tendência? É algo que veio para ficar ou é passageiro?

Penso que desde a Revolução Industrial, o ser humano vem criando maneiras de otimizar a produção de bens. Tudo passou a ser muito rápido, e o ritmo de vida de hoje é estressante. O que se vê ultimamente no Brasil e no mundo é um movimento contrário a isso. Fortalecimento dos produtos locais, valorização de técnicas artesanais (como exemplo, a volta dos bordados à mão), slow fashion… Sinto que aliado a isso, as pessoas sempre tiveram uma forte necessidade de personalização, ter um objeto feito “especialmente para alguém”. Atualmente, grande parte das pessoas tem acesso a tecnologias digitais. Muitos sabem utilizar programas de edição como o Photoshop, Illustrator etc. Assim, o que faz um objeto ser diferente, em meio a tantos recursos digitais, é um caráter artesanal, de “feito à mão”.

Eu acredito que o lettering, assim como o bordado, outra técnica que está bastante em alta, devem continuar assim por mais algum tempo. Exatamente por esse movimento global de valorização de produtos artesanais, e de uma forma um pouco mais acessível do que há alguns anos. Não tenho certeza se o lettering veio para ficar, mas percebo que algumas vertentes, como o desenho digital tridimensional e o tactile design estão começando a crescer. Acredito que é uma tendência que deve durar por mais algum tempo, de forma geral. 

https://www.instagram.com/p/BjNNelajEeR/

 

CB: Como funciona o seu processo criativo na hora de pensar e criar as composições? Tem algum ritual importante e indispensável?

O meu processo criativo pode começar com uma frase pronta (algo que ouvi em algum filme, letras de música etc) ou a partir de um sentimento momentâneo. Penso primeiro nas palavras, depois no que elas significam, olho referências e começo a rascunhar. Às vezes, as ideias de frases e layouts vêm quando estou, digamos, no ônibus. Daí apenas as anoto e sigo para a criação em um momento oportuno. Às vezes, as ideias já chegam inteiramente prontas: já sei a frase, o layout e as cores que gostaria de usar, faltando apenas colocar a mão na massa.

Apesar de ter uma mesa digitalizadora há anos, até hoje não consegui largar o papel. O meu rascunho sempre é feito à mão. A finalização do desenho, por outro lado, tenho feito muito no Photoshop, com ajuda da mesa. Gosto de adicionar texturas ao fundo e de intercalar as cores que escolhi trabalhar, para depois escolher a versão final das minhas criações.

Não sei se é exatamente um ritual, mas quando começo a transformar um rascunho em arte final (ainda na fase do papel e lápis), gosto de limpar a minha mesa, liberando mais espaço para que eu possa me movimentar. Coloco uma música ou uma série no computador e faço uma xícara de café com leite.

 

CB: Algo que muitos letristas falam é a importância de ter referências e inspirações. Você acha importante também essa ideia? Que tipos de referência você coleta no seu dia a dia? Onde estão os maiores tesouros do lettering?

Qualquer projeto deve começar por um briefing, seguido de uma pesquisa de referências, então criação. Quem já está na indústria criativa sabe que as referências são essenciais, porque mostram ao diretor de arte o que está em alta, quais estilos podem ser explorados, o que os concorrentes dos seus clientes estão fazendo, o que funciona e o que não funciona. Elas ajudam a perceber se uma ideia que parecia inovadora já foi feita, ou ainda, perceber se algo que está acontecendo no exterior ainda não chegou ao Brasil.

Eu costumo coletar tudo que me atrai. Revistas, cartões postais, embalagens de produtos, rótulos… Especificamente para o lettering, gosto muito de observar capas de livros, cartões de aniversário, peças de papelaria etc.

Chegando em casa, eu passo tudo que coletei por um filtro (por exemplo, pego apenas as páginas de revista que me interessaram mais) e colo as referências em cadernos ou pasta (estilo fichário). Devo ter aproximadamente 6 cadernos A4 e 2 pastas. O legal disso é que, mesmo quando você não está buscando por inspiração, é muito gostoso folhear as coisas que você coleta! O objeto em si é inspirador (e bonito!).


CB: A gente sabe que você tem uma paixão pelo lettering com materiais diferentes, o Tactile Design! O que te levou a se interessar por essa técnica incomum e única?

O meu primeiro contato foi há uns cinco anos, a partir de uma ex-colega de faculdade, que me mostrou uma imagem com tactile design e me explicou o que era a técnica. Eu lembro que era uma arte feita com papel, acredito que de um estúdio aqui no Brasil mesmo (penso que no exterior essa tendência já está mais forte do que em casa). Coincidiu que, pouco tempo depois, vi um anúncio de cursos oferecidos pela Zupi Academy na UEMG, sobre o workshop de Tactile Design com o designer João Lopes.

No dia, ele mostrou seu trabalho e fizemos uma composição livre, com objetos à nossa escolha. Lembro que foi um pedido surpresa, ele apenas nos avisou: “Vamos sair agora para o nosso intervalo de almoço. Gostaria que vocês escolhessem materiais durante a pausa para podermos trabalhar”. Isso em um domingo! Não tinha nenhuma loja aberta, e, acredito, apenas nos ofereceram papel. A minha ideia foi, então, coletar flores e folhas que eu encontrasse pelo caminho até o restaurante onde fomos almoçar.

Depois do curso, meu interesse só aumentou. Vi o quanto era divertido conhecer cada material e, apesar da enorme paciência de Jó que é necessária, o resultado sempre foi muito compensador.

Gostou do trabalho da Ariane Vieira e ficou com vontade de entrar no mundo do lettering? A designer ministrou o curso de lettering intermediário para a Casa Beta e repassou um pouco do seu conhecimento e também do seu astral!